quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Marcados pelo Espírito

«Fostes marcados com o selo do Espírito Santo prometido.»
(Efésios 1:13)

O Espírito de Deus actua em nós.
O Espírito Santo é selo que nos marca. Marca-nos à imagem do gado ou dos escravos que eram marcados com ferros para que a marca não pudesse ser lavada. O Espírito Santo marca os que lhe pertencem. O Espírito que vive em nós identifica-nos pela sua acção com Cristo. A coerência de vida deve, pois, ser a nossa marca.
Os assinalados são os marcados para serem salvos.
A promessa do Espírito Santo é uma promessa que vem de longe. O Profeta Joel previu que o Senhor derramaria o seu Espírito sobre todos os povos: «Eu derramarei o meu Espírito sobre todos os povos. Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e os vossos jovens terão visões. Ainda sobre os meus servos, homens e mulheres, eu derramarei o meu Espírito naqueles dias.» (Joel 2:28-29)
Também Jesus prometeu o Espírito Santo. E em cada dia Deus continua a manter a promessa do Espírito a todos os que recebam Jesus pela fé, a fim de nos garantir a herança de que já participamos.
Jesus ensinou-nos a rezar, dizendo: «Venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade assim na Terra como no Céu.» E é o Espírito Santo quem garante que antecipadamente, já aqui na terra, recebamos a herança prometida. O Espírito Santo em nós faz-nos saborear (experienciar em nossa vida) o que verdadeiramente é o Céu.
O Espírito Santo é o poder de Deus que nos faz perceber e obedecer, sentir e apreciar o que Deus faz por cada um de nós. Pelo Espírito Santo Deus opera na história, Deus continua actuando em favor da humanidade.

Vamos recomeçar

Plano de Encontros de Crisma:


25 Setembro - Re-início dos Encontros.

15 Outubro - Encontro de Crisma.
29 Outubro - Encontro de Crisma.

12 Novembro - Encontro de Crisma.
26 Novembro - Encontro de Crisma.

10 Dezembro - Memória do nosso Baptismo.

14 Janeiro - Encontro de Crisma.
28 Janeiro - Encontro de Crisma.

11 Fevereiro - Encontro de Crisma.
25 Fevereiro - Encontro de Crisma.

11 Março - Encontro de Crisma.
25 Março - Encontro de Crisma.

2-3 Abril - Retiro espiritual.
15 Abril - Encontro de Crisma.

6 Maio - Encontro de Crisma.
20 Maio - Encontro de Crisma.

3 Junho - Encontro de Crisma.
11 Junho - Vigília de Pentecostes.
12 Junho - Pentecostes.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Porque é que a Igreja baptiza as crianças?

Porque é que a Igreja insiste em baptizar as crianças pouco tempo depois de elas nascerem? Não será isto um atentado contra a sua liberdade? E se mais tarde não quiserem seguir a religião Católica? Não será muito mais sensato esperar que cresçam e nessa altura escolham livremente a religião que desejam praticar?
São muito comuns, nos dias de hoje, estas perguntas. E não somente as perguntas. Também está a tornar-se comum – infelizmente – atrasar o baptismo com o argumento de que é preciso respeitar a liberdade das crianças. Com essa mesma “lógica”, os pais não deveriam escolher arbitrariamente um nome para os seus filhos – seria mais respeitador da sua liberdade que mais tarde os próprios escolhessem. Também seria contra a liberdade dos filhos obrigá-los a ir à escola, a arrumar o quarto ou, em geral, a portarem-se bem. Quem são os pais para imporem aos seus filhos aquilo que consideram que é o bem ou o mal? Não será que essa atitude pode gerar-lhes traumas na infância que dificultarão o exercício da sua liberdade sem nenhum tipo de limites?
Que tal, neste momento, pormos os pontos nos ii? O problema de fundo não é o baptismo nem a liberdade. O problema de fundo é a falta de fé de alguns pais no que significa para o seu filho ser baptizado. Actualmente, vê-se muitas vezes o baptismo como uma simples festa de apresentação aos familiares e amigos da criança que acaba de nascer. Dá-se mais importância a aspectos exteriores como a escolha “cuidadosa” dos padrinhos – não com a finalidade de que saibam zelar pela fé do afilhado, mas com o “critério” de que sejam pessoas amigas que não se esqueçam de dar presentes nos momentos oportunos.
O Compêndio do Catecismo da Igreja Católica diz-nos que é precisamente o desejo de que os filhos sejam livres que leva os pais a pedirem o baptismo pouco depois de eles nascerem. Pergunta nº 258: “Porque é que a Igreja baptiza as crianças?”. Resposta: “Porque tendo nascido com o pecado original, elas têm necessidade de ser libertadas do poder do Maligno e de ser transferidas para o reino da liberdade dos filhos de Deus”.
Se uma pessoa possui de verdade a fé católica – ou seja, se acredita naquilo que nos disse Nosso Senhor Jesus Cristo – sabe que todos nascemos com uma doença espiritual que se chama pecado original. Também sabe que essa doença tem cura – uma cura infalível que é o baptismo. Também sabe que essa cura não foi “inventada” pela Igreja, mas foi instituída por Jesus Cristo, que, com a sua morte na Cruz, nos alcançou a libertação do pecado e a gloriosa liberdade de filhos de Deus. Também sabe que o baptismo é necessário para a salvação porque assim o disse, sem papas na língua, o próprio Jesus: “Quem crer e for baptizado será salvo; mas quem não crer, será condenado” (Mc 16, 15).
Resumindo: o problema dos atrasos no baptismo não está tanto no respeito pela liberdade das crianças, mas sim na falta de fé de muitos pais que se “esquecem” da importância que possui este sacramento para a salvação dos seus filhos.
Pe. Rodrigo Lynce de Faria

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Sétimo Encontro: Maria, a Serva do Senhor

1. RELEVO DE NOSSA SENHORA NA DEVOÇÃO POPULAR
Nossa Senhora ocupa um lugar muito importante na vida da Igreja e no coração dos discípulos de Jesus. Ao longo do ano Litúrgico muitas festas são dedicadas a Nossa Senhora: Anunciação a 25 de Março; Assunção a 15 de Agosto; Natividade a 8 de Setembro; Imaculada Conceição a 8 de Dezembro; Santa Maria Mãe de Deus a 1 de Janeiro. E muitas outras liturgicamente menos importantes.
Não só na liturgia oficial da Igreja. Também na devoção popular. Nossa Senhora ocupa um lugar de grande relevo. É profunda, entre as pessoas simples, a veneração e a confiança na intercessão de Nossa Senhora. As festas e peregrinações movimentam ainda hoje muita gente. Muitos católicos parecem chegar mais facilmente a Jesus Cristo e a Deus através da Virgem Maria.
A devoção a Nossa senhora aparece, portanto, profundamente associada à vida cristã, tendo deixado, na história do cristianismo, fortes marcas exteriores: Igrejas, ermidas e festas; orações e narrações de factos miraculosos conservados na memória do povo; valiosas obras de arte motivadas por Nossa Senhora, etc.
Encontramos também na devoção popular algumas formas desviadas: revelações privadas consideradas, por vezes, mais importantes que a Revelação bíblica; sentimentalismo superficial e procura fácil do milagre, etc.

2. MARIA NO MISTÉRIO DE CRISTO E DA IGREJA
O Concelho Vaticano II alerta que «a verdadeira devoção a Nossa senhora não consiste na emoção estéril e passageira mas nasce da fé que nos faz reconhecer a grandeza da Mãe de Deus e nos incita a amar filialmente a Nossa Mãe e a imitar as suas virtudes» (LG 67).
Vamos pois reflectir o que a fé cristã, nas suas fontes bíblicas e do magistério eclesial, nos indica sobre o lugar de Nossa Senhora na vida cristã.

2.1. Participação de Nossa Senhora na vida e missão de Jesus
Os evangelhos de São Lucas e de São João manifestam a íntima ligação de Nossa Senhora com a vida e missão de Jesus Cristo e com a vida dos crentes.
Ao narrar a infância de Jesus, São Lucas mostra a presença de Maria nos episódios marcantes da vida oculta de Jesus de Nazaré, em que se desvenda já o seu Mistério: Anunciação; Visitação; Nascimento; Apresentação no Templo; Perda e encontro em Jerusalém.
São João, por sua vez, mostra Nossa Senhora profundamente associada à «hora» de Jesus: início da vida pública e momento supremo da redenção em que Maria é entregue como Mãe ao discípulo que representa todos os que hão-de acreditar n’Ele.
A participação nos acontecimentos importantes da vida de Jesus engloba também o momento da glorificação e o do nascimento da Igreja no dia de Pentecostes. Nossa senhora participa realmente na vitória de Jesus sobre o pecado e sobre a morte (a glorificação na Ressurreição e Ascensão) através da Assunção ao Céu; e está presente no Pentecostes como Mãe espiritual de todos os crentes.

2.2. Maria Nossa Mãe
Esta associação de Nossa Senhora à vida e à missão de Jesus continua ainda hoje. «A maternidade de Maria na economia da graça perdura. Elevada ao céu, não abandonou esta missão salvadora, mas, com a sua multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna. Cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra até chegarem à pátria bem-aventurada» (LG 62)
Solidária com o género humano, de quem é ilustra membro, e associada à Redenção de Jesus, Nossa Senhora ocupa, portanto, um lugar de primeira importância na vida cristã. Ela é nossa Mãe na ordem da graça, atenta ao nosso caminho para Deus, preocupada com a nossa salvação (cfr. LG 53).
Mãe do Redentor ela é, portanto, nossa Mãe: «é verdadeiramente Mãe dos membros de Cristo porque cooperou com o seu amor para que na Igreja nascessem os fiéis» (LG 53).
Nossa Senhora é Mãe de Jesus, não apenas no sentido biológico ou físico, mas também no sentido espiritual, na ordem da graça. Quando uma mulher do povo, que ouvia a pregação de Jesus, exclamou: «Feliz o seio que Te trouxe e os peitos que Te amamentaram», exaltando assim a maternidade biológica de Maria, Jesus acrescentou: «felizes os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática». Desta forma indica que a grandeza da sua Mãe se fundamentava também na fé: Ela escutou atentamente a Palavra do Senhor, guardando-a e meditando-a no seu coração para compreender o seu sentido profundo, e dispôs-se a colaborar humildemente com o desígnio de Deus «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a Tua Palavra». Assim, o reconhece a sua prima Isabel na Visitação: «Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor» (cfr. Lc 8,19-21; 2, 13; 1, 38 e 45).

3. NOSSA SENHORA CATECISMO VIVO DA VIDA CRISTÃ
Vimos, na Sagrada Escritura e no magistério da Igreja, que a grandeza de Nossa Senhor assenta na sua profunda ligação à Redenção de Jesus. Concluímos, assim, que o lugar importante de Nossa Senhora nasce da fé e não apenas do sentimento.
Como manifestar, pois, a veneração a Nossa Senhora? Como dar a Nossa Senhora o lugar que ela merece na nossa prática religiosa?
O Concílio, atrás referido, conclui que a fé nos incita a amar filialmente a nossa Mãe e a imitar as suas virtudes.

Como concretizar o amor filial a Nossa Senhora?
a) Recorrendo a Ela, entregando-nos ao Seu cuidado materno através da oração. Esta confiança na protecção de Nossa Senhora tem sido constante ao longo das gerações e ainda hoje deve caracterizar todos os discípulos de Jesus. Vem desde o séc. VI esta bela oração a manifestar a confiança na ajuda materna de Maria: «À vossa protecção recorremos, ó Santa Mãe de Deus, não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos ó Virgem gloriosa e bendita».
Algumas formas de oração a Nossa Senhora tornaram-se muito populares. Entre elas merece especial destaque o Rosário (terço), chamado o breviário do povo, continuamente recomendado pela Igreja como oração da família. Recitado como oração familiar ajuda realmente a orientar para o Senhor a vida do lar. Ao longo das dezenas do Rosário pedimos a intercessão de Nossa Senhora e, na sua companhia, aprendemos a meditar os mistérios de Jesus (acontecimentos principais da vida de Jesus que manifestam o mistério da Sua pessoa).

Como e quando rezar a Nossa Senhora?
b) O amor filial à Virgem não pode limitar-se a pedir a sua intercessão. Deve manifestar-se também na imitação das suas virtudes. Ela é a Serva do Senhor que nos apresenta Jesus como luz e salvação e que nos orienta para Jesus. Nossa Senhora foi realmente a primeira e mais perfeita discípula de Jesus. Ensina-nos, não apenas com doutrina, mas com os exemplos concretos da sua vida. O Papa Paulo VI chamou-a «catecismo vivo» onde podemos aprender na prática como deve ser o discípulo de Jesus.

Que atitudes cristãs mais importantes podemos aprender com Nossa Senhora?
- Ensina-nos, antes, de mais a escutar a Palavra do Senhor e a guardá-la no coração.
Maria realmente escutou e compreendeu a mensagem da Anunciação. Continuou a escutar os vários personagens que aparecem na infância de Jesus. Escutou depois a Palavra do Senhor. Escutava e guardava no coração procurando compreender e aprofundar.
A devoção à Mãe do Céu orienta-se, assim, a escutar a Palavra de Deus, a meditá-la no coração e a aprofundá-la cada vez mais.
- Ensina-nos também a colaborar na realização do plano de Deus. Ela mostrou-se disponível e obediente. Apresentou-se como Serva humilde colocando a sua vida ao serviço do plano divino.
Seguir o seu exemplo é participar também no apostolado da Igreja para que a salvação de Cristo se estenda ao mundo.
A devoção a Nossa Senhora conduz-nos portanto a Jesus: incentiva-nos a segui-Lo e integra-nos na Igreja.
Maria resume a esperança do Antigo Testamento e da Igreja – Ela é chamada a estrela da Manhã: «Assim como esta estrela, conjuntamente com a Aurora, precede o nascer do sol, assim também Maria, desde a sua Conceição imaculada, precedeu na história do género humano, a vinda do Salvador, o nascer do Sol da Justiça» (RM 3).
Aprendamos, portanto, com ela a esperar e a preparar a vinda do Senhor, «Sol que ilumina todo o homem que vem a este mundo».
A. Marto - M. Pelino

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Sexto Encontro, Deus conduz a história para a salvação


1. RELAÇÃO ENTRE A FÉ E OS ACONTECIMENTOS DA HISTÓRIA
Nos encontros anteriores verificámos que Deus se revela no Antigo Testamento como um Deus próximo, presente e atento á vida do povo de Israel, preocupado em orientar a história pelos caminhos da justiça e da paz.
No entanto, o desígnio de Deus choca com a liberdade e com o pecado do povo e dos chefes, «O Rei e o povo fizeram o que era mão aos olhos de Jahvé», repete frequentemente o livro dos Reis. A infidelidade à Aliança provoca calamidades (guerras, exílios, etc.). Apesar do pecado Deus intervém, «escrevendo direito mesmo em linhas tortas», fazendo, apesar de tudo, avançar progressivamente o Seu desígnio de Salvação.
O desígnio de Deus mostra-se, portanto, ligado aos acontecimentos da história. O povo de Israel conheceu a Deus sobretudo a partir da sua história, a partir da acção de Deus em seu favor e da Palavra.
Que nos diz a nossa experiência sobre esta relação entre a fé em Deus e os acontecimentos da história? Não será que muitos acontecimentos são entendidos como negação da Providência de Deus? Como por exemplo os desastres, a opressão dos mais débeis, as guerras, o sofrimento inocente, etc?
Em relação à transformação contínua que se verifica na sociedade (mudança de cultura, de hábitos, etc) qual a atitude mais frequente que notais à vossa volta? De pessimismo e receio do futuro? De optimismo e de esperança? Ou a sensação de divisão interior e de relativização de tudo?
A fé cristã aparece, no vosso ambiente, apenas ligada ao passado ou também como incentivo a confiar e a construir o futuro? Leva ao compromisso com as realidades sociais ou ao desinteresse pelos acontecimentos da história?
Que orientações podemos colher na sagrada Escritura sobre esta problemática? É a reflexão que vamos fazer.

2. A SALVAÇÃO DE DEUS REALIZA-SE NA HISTÓRIA DOS HOMENS

2.1. A Aliança vivida na história
O pacto de Aliança estabelecia uma comunhão existencial entre Deus e o povo israelita sintetizada na fórmula: «Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo». Da parte do povo implica a fidelidade aos mandamentos. Porém, o povo de Deus, em contacto com outros povos ou perante as dificuldades, nem sempre correspondeu à Aliança. Logo junto do Sinai os israelitas fabricaram um bezerro de oiro e adoraram-no. Preferiram um Deus a seu gosto ou à sua medida.
Perante a infidelidade do povo, Deus permite vários castigos e deixa que a peregrinação pelo deserto se prolongue por muitos anos de modo que o povo se purifique antes de entrar na Terra Prometida (cf. Deut 8,2-3).
Deus permanece fiel e continua, apesar de tudo, a proteger o povo através de vários dons miraculosos, como: o maná; a água que brota do rochedo: a coluna de fogo.
Finalmente, depois de 40 anos de peregrinação pelo deserto, tendo já Moisés morrido, o povo entra na Terra Prometida, condizido por Josué, sucessor de Moisés (cf. Josué 1, 1-4)
A posse da Terra Prometida não garantiu a fidelidade do povo nem realizou definitivamente as promessas de Deus. O povo continua sujeito às tentações que agora se concretizam na sedução dos falsos deuses dos povos vizinhos, esquecendo frequentemente a Aliança com Deus que os libertara do Egipto. Os próprios reis de Israel, escolhido para orientar o povo na fidelidade à Aliança, se deixam tentar pela idolatria e pela iniquidade.
O povo de Israel escolhido desde Abraão como povo santo de Deus, libertado do Egipto, objecto de aliança, aparece-nos assim como um povo cuja história é marcada pela intervenção de Deus. Estas intervenções marcam a sua consciência religiosa, são guardadas de memória e transmitidas de pais para filhos. A própria liturgia manifesta esta experiência histórica da protecção de Deus. Assim o Credo do povo de Israel, mais que um conjunto de afirmações doutrinais sobre Deus, é uma narração de acontecimentos históricos nos quais tomaram consciência da presença, orientação e protecção de Deus (ler Deut 26, 5-10).

2.2. Os profetas actualizam a Aliança
Devido à infidelidade do povo, a residência na Terra Prometida não foi uma posse serena mas frequentemente ameaçada. Algumas vezes, o povo é desterrado para o exílio e frequentemente dominado por povos estrangeiros que tentavam apagar a memória religiosa de Israel. Deus, porém, envia profetas que mantêm viva no povo a consciência de Aliança.
Os profetas aparecem-nos profundamente atentos aos acontecimentos do seu tempo, interpretando-os à luz da Aliança e decifrando neles a realização do desígnio de Deus. Os acontecimentos salvíficos do passado, como o Êxodo, a Aliança e a entrada na Terra Prometida, constituem para os profetas uma chave de leitura e de compreensão da história do seu tempo. Os profetas mostram-se homens da Palavra de Deus situada na história, procurando descobrir os apelos de Deus nas situações concretas. A interpretação da Aliança é sempre actualizada em resposta ao presente e como perspectiva de entender o futuro.

2.3. A Aliança como realidade dinâmica
A Aliança entende-se, pois, não como realidade estática, mas dinâmica, que progride para a perfeição, que conhece fases de desenvolvimento e um contínua actualização. É interpretada como promessa de Deus que se projecta para o futuro e atravessa toda a história de Israel. Os acontecimentos da história são, por isso, entendidos como etapas da realização progressiva da Promessa de Deus a Abraão e à sua descendência:
- a libertação do Egipto
- a travessia do mar Vermelho
- a assistência na peregrinação pelo deserto
- a Aliança no Sinai
- a entrada na Terra Prometida.
O povo experimenta continuamente a dificuldade de permanecer fiel ao caminho indicado por Deus. A fidelidade só é possível se for constantemente alimentada e renovada.
As infidelidades do povo à Aliança levam os profetas a concluir a insuficiência do Antigo Testamento e a anunciar, para o futuro, uma nova Aliança. Assim a perfeita comunhão com Deus só no futuro se realizará.

2.4. Jesus Cristo centro da história da Salvação
O acontecimento histórico que mais profundamente determina a realização do plano de salvação de Deus é a vida de Jesus, sobretudo a sua morte e ressurreição. Também este acontecimento se situa na realização da Promessa que vem desde Abraão: «Tomou a Seu cuidado a Israel seu servo lembrado da Sua misericórdia como tinha prometido a nossos pais a Abraão e à sua descendência para sempre» (Lc 1, 54).
Podemos, pois, concluir que toda a história é orientada por Deus para realização da Salvação. O plano de Salvação de Deus dá sentido à história e unidade aos acontecimentos. Jesus Cristo é entendido como centro de realização deste plano. Ele veio quando o tempo (da preparação) chegou ao fim (a plenitude dos tempos) e inaugurou a presença do Reino. Mas, ao mesmo tempo, orienta-se para o Reino que há-de vir, convidando-nos a prepará-lo. Com Ele o Reino «já» chegou mas «ainda não» atingiu o seu termo.
O desígnio de Salvação continua a progredir. Somos convidados a colaborar na sua realização. Esperamos o novo céu e a nova terra em que habita a justiça e a paz. Essa Jerusalém celeste é dom de Deus, desce do céu, mas é também fruto da nossa colaboração em construirmos os valores do Reino: a justiça, a paz, a fraternidade entre os homens (cf. Apoc 21, 1-7; G S nºs 39 e 45)

3. CONFIAR E COLABORAR NO DESÍGNIO DE SALVAÇÃO

3.1. Confiar no futuro
A história encaminha-se para a plenitude, para a novidade constante do Reino de Deus. Como cristãos, não podemos desejar um regresso ao passado, aos bons velhos tempos de antigamente. Deus, Aquele «que faz novas todas as coisas» (Apoc 21, 5), convida-nos a confiar no futuro e a prepará-lo. Ele caminha connosco, vai à nossa frente, fazendo crescer a semente do Reino que Jesus Cristo lança na terra e no coração dos homens.

3.2. Escutar Deus no presente
A orientação para o futuro e o compromisso com o presente devem assentar na memória do passado. É através da reflexão nos acontecimentos passados (Eleição e Promessa a Abraão, Êxodo, Aliança, etc.) que encontramos luz para entender o presente e para perspectivar o futuro. Daí a importância do conhecimento da Bíblia. Ela contém a memória do Povo de Deus, não apenas como um livro do passado mas como Palavra de Deus sempre actual que ilumina o presente e o futuro. Na Sagrada Escritura devemos escutar o apelo de Deus que se dirige hoje a cada um de nós, convidando-nos à fidelidade ao Seu projecto.

3.3. Testemunhar a Esperança
Se o futuro pertence a Deus que conduz a história dos homens somos convidados a viver em atitude de esperança.
O tempo do Advento põe-nos em contacto com algumas figuras do Antigo Testamento que nos orientam a esperar o Senhor que vem. O senhor vem continuamente ao nosso encontro. Nós, a Igreja peregrina, devemos procurar os caminhos do Reino que Jesus já inaugurou mas ainda não realizou definitivamente. Somos peregrinos a caminho do novo Céu e nova Terra que deus preparar para os seus eleitos. «A expectativa da nova terra não deve, porém, enfraquecer mas antes activar a solicitude em ordem a desenvolver esta terra, onde cresce o corpo da nova família humana» (GS 39).
Assim a Esperança não é uma atitude passiva, que nos leve a esperar de braços cruzados, mas uma atitude activa que leva ao compromisso de colaborar na construção do reino de Deus.
M. Pelino - A. Marto

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Quinto Encontro: Os profetas anunciam um Salvador

1. ACTUALIDADE DA MENSAGEM DOS PROFETAS

Depois de Moisés houve outros profetas.
Moisés morreu antes de entrar na terra Prometida. Sucedeu-lhe Josué na condução do Povo de Deus. Abençoado por Moisés, Josué continua a encontrar na Aliança a base da existência de Israel. A este novo condutor Deus promete também assistência e entrega-lhe a tarefa de introduzir o povo na terra de Canaan, hoje conhecida por Palestina (Ler Josué, 1:2-9).
A entrada neste país é entendida por Israel como o cumprimento das promessas feitas a Abraão (cf. Génesis 17:8) e como continuação da Aliança do Sinai. A terra de Canaan é, para Israel, a terra «onde corre leite e mel» e a «Terra da Promessa». Deus continua assim a intervir na história deste povo orientando-a segundo a Promessa e a Aliança feita com os antepassados.
A residência em Canaan marca um período diferente na história religiosa de Israel. Verifica-se uma mudança de estilo de vida: as tribos nómadas do deserto adquirem agora uma vida sedentária: tornam-se agricultores e pastores com residência estável. Entram, por outro lado, em contacto com outros povos mais evoluídos na agricultura, com o perigo de contágio pelas suas divindades ligadas à fecundidade, talvez mais sedutoras que o Deus invisível que os libertara do Egipto e os conduzira pelo deserto. Será possível manter o monoteísmo em contacto com o politeísmo de Canaan?
Segundo a ordem natural das coisas, atestada pela história das religiões, nestas circunstâncias a crença das tribos seria substituída pelas divindades agrícolas dos povos circundantes. Na realidade, porém, Israel constitui uma excepção mantendo-se fiel ao Deus da sua história.
A fidelidade à aliança não se manteve, porém, isenta de tentações. Frequentemente, o povo se deixa seduzir pelos falsos deuses caindo na idolatria e na infidelidade.
Para chamar o povo à fidelidade à Aliança e o manter na esperança da Salvação, Deus envia-lhe profetas. Durante vários séculos foram os profetas que orientaram o povo de Israel na vida religiosa, transmitindo a Palavra de Deus, lembrando a fidelidade à Aliança e despertando a esperança na vinda de um Salvador.
Precisamos de profetas verdadeiros que anunciem a esperança e a salvação para todos os homens; que proclamam a mensagem evangélica de sempre com roupagem nova e actual; que preguem a verdade mesmo que seja dura, desagradável e desinstaladora; que acreditem num mundo melhor e se comprometam com a sua edificação.
Mas os profetas concretos não são a corporificação dos nossos sonhos de verdade e de paz. São enviados de Deus, proclamam uma mensagem que lhes é confiada, indicam os caminhos de Deus que nem sempre coincidem com os caminhos dos homens. Vamos então descobrir na Sagrada escritura a verdadeira identidade e as tarefas dos profetas e esclarecer como se realiza hoje a missão profética.

2. OS PROFETAS CHAMAM À FIDELIDADE E À ESPERANÇA

2.1. Os profetas transmitem a Palavra de Deus
Os profetas não são bruxos ou visionários. São chamados por Deus para transmitir ao povo a palavra d’ Ele. A mensagem que comunicam não é sua, mas foi-lhes directamente confiada por Deus. São, por isso, os porta-vozes de Deus, os que falam em nome de Deus.
A missão dos profetas vem a seguir a um chamamento pessoal, que os marca profundamente (a vocação) e apoia-se numa intimidade privilegiada com Deus (como Moisés são íntimos de Deus e solidários com o povo). São iluminados pelo Espírito de Deus que lhes concede um conhecimento mais profundo do Seu desígnio de Salvação. Por isso, os profetas vêem mais longe que o comum das pessoas e interpretam a Aliança de uma maneira sempre nova.
Os profetas contribuem para realçar a importância da palavra de Deus na vida de Israel. É a Palavra de Deus que orienta a vida deste povo. Através dela, Deus está presente na história de Israel e dá sentido aos acontecimentos. A Palavra de Deus era guardada e transmitida pela tradição oral. Actualizada pelos profetas, celebrada no culto.
Assim, assistido pela Palavra de Deus e guiado pelos profetas, o povo de Israel mantém a sua fé num Deus único e universal, ultrapassando duas grandes tentações: a do politeísmo e a de uma religião nacional (exclusiva para este povo). Também neste aspecto o povo hebreu é único na história das religiões.

2.2. Os profetas defendem a santidade de Deus e os direitos dos homens
Os profetas são antes de mais defensores dos direitos de Deus. Purificam a verdadeira fé das deformações provenientes da mesquinhez dos homens. Defendem a pureza da Aliança impedindo que seja submetida aos interesses pessoais, sobretudo dos poderosos, ou adaptada às necessidades e esquemas mentais do povo. Nesse sentido, condenam sem tréguas a hipocrisia, a mentira, a injustiça.
A verdade na relação com Deus reflecte-se na verdade da relação com o próximo. O amor a Deus manifesta-se no amor aos homens, na solidariedade com os pobres e oprimidos. Por isso, em nome do amor de Deus, o profeta denuncia a injustiça, a opressão e a infidelidade. Não como revolucionário, mas como testemunha de Deus. Não por interesses pessoais (de lucro ou de carreira) mas baseado na liberdade de testemunha de Deus no mundo.
A defesa da transcendência de Deus conduz os profetas à defesa da dignidade de todos os homens denunciando corajosamente os abusos dos poderosos em relação aos mais desprotegidos: «vendem o justo por dinheiro e o pobre por um para de sandálias» (Amós 2, 6). A aliança com Deus implica uma relação de justiça com o próximo baseada no reconhecimento da dignidade e dos direitos de todos os homens. Por isso, condenam o culto quando desligada da caridade para com o próximo (cf Isaías 58, 6-8).

2.3 Os profetas anunciam um Salvador que há-de vir
Desde Abraão, a Moisés e aos Profetas, a história de Israel está orientada pelas Promessas de Deus. Deus prometera a Abraão uma terra, a bênção e posteridade. Talvez nalguns períodos estas promessas tenham sido entendidas de um modo muito material. A terra prometida seria apenas o território geográfico de Canaan? A posteridade limitar-se-ia à descendência de sangue? A bênção consistiria unicamente na protecção contra os inimigos?
Os profetas ajudam a purificar e a espiritualizar a compreensão das promessas de Deus. A terra prometida é o reino de Deus, um mundo onde haja paz, onde Deus esteja presente e os homens sejam irmãos. A bênção orienta-se sobretudo a uma nova presença de Deus no meio do povo, a uma Aliança mais interior (gravada no coração) e a uma geração que será formada pelos crentes entre todos os povos.
As promessas de Deus começam a concretizar-se na espera de um personagem misterioso que virá trazer a Salvação. Esse personagem é chamado o «Messias», que em português significa «Ungido». Ele terá realmente a plenitude da «unção» ou «consagração», que lhe confere a plenitude do Espírito e inaugurará uma nova relação entre Deus e os homens, e dos homens entre si (Ler Isaías 11:1-9).
Assim os profetas não fazem só apelo à Aliança do passado mas orientam as pessoas para um acontecimento futuro que há-de transformar o curso da história humana. Rasgam, portanto, horizontes novos quando tudo parece perdido, e animam a esperança em épocas de crise (como aconteceu no período do exílio).
Este Messias esperado é descrito umas vezes como um grande rei, outras como o servo humilde que dá a vida em redenção dos pecados do povo (Ler Isaías 53:2-8). Assim compreendemos que o povo de Israel tenha formulado, acerca do Messias, ideias diferentes, umas vezes entendendo-o como uma figura política, outras vezes como uma figura espiritual.

3. PARTICIPAMOS DA MISSÃO PROFÉTICA

3.1. Jesus Cristo e a Igreja continuam a missão dos profetas

Os profetas de Israel terminaram. No século I as autoridades judaicas consideraram encerrada a formação da Bíblia. Terá terminado também a profecia como missão confiada por Deus aos homens?
O Novo Testamento (Evangelho e cartas) afirma o contrário: contrário: Depois dos profetas do Antigo Testamento veio o «profeta por excelência» em que a profecia alcançou a plenitude: «Tendo Deus falado outrora aos nossos pais, muitas vezes e de muitas maneiras, pelos Profetas, nestes tempos, que são só últimos, falou-nos por Seu próprio Filho» (Hebreus 1:1-2; cf. Actos 2:21-23). Jesus é entendido como continuação e realização perfeita dos profetas. Aos olhos do povo que O escutavam Ele era considerado um grande profeta: como os profetas Ele tem uma profunda intimidade com Deus; apoiando-se e comentando o Antigo Testamento dá-lhe porém uma interpretação nova; fala com autoridade e liberdade ainda maiores que os profetas.
Jesus Cristo aceita o título de profeta e entende-se a Ele mesmo como o profeta definitivo: «ouvistes que foi dito: eu porém digo-vos».
Ao terminar a existência terrena Jesus confia à Igreja a tarefa de continuar a sua missão profética. Todo o povo de Deus da Nova Aliança, todos os membros da Igreja de Jesus Cristo, participam hoje da função profética (cf. 1 Pedro 2:9). Realiza-se assim um anseio expresso por Moisés: «Quem dera que todos os membros do Povo de Deus fossem profetas e que O Senhor fizesse poisar o Seu Espírito sobre eles» (Números 1:24-30). Embora alguns cristãos recebam maiores dons do espírito para esta tarefa e possam exercer a profecia de modo mais pleno, no entanto, todos são chamados a testemunhar a fé tanto pela exemplaridade de vida cristã como pela proclamação da Palavra de Deus.

3.2. Escutar a Palavra de Deus e deixar-se transformar por ela
Deus fala, não é mudo, dirige-se aos homens, não se fecha em si mesmo. Este é um dado constante da revelação judaico-cristã. O grande meio de que se serve para entrar em comunicação connosco é a palavra humana dos intermediários que chama a esta missão.
Assim, a Palavra de Deus chega até nós através da palavra humana dos intermediários que apresentam garantias de credibilidade do chamamento a esta missão. Escutar a Palavra de Deus através das palavras humanas permanece sempre a grande fonte de fé.
A Palavra de Deus apresenta uma novidade constante em resposta às circunstâncias de cada época. Tendo a sua norma na Sagrada Escritura, situando-se em continuidade com a Revelação das origens, é, no entanto, uma iluminação de cada época presente e dos problemas reais dos homens.
Verificamos, assim, a importância de escutar assiduamente a Palavra de Deus, e a meditar no coração para atingir o seu sentido profundo e sempre novo, de a traduzir em obras para alcançar a sabedoria: «Quem escuta as minhas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha» (Mateus 7:24). Depois de escutar, meditar e praticar a Palavra de Deus, podem então os cristãos testemunhar o Evangelho no mundo.
M. Pelino - A. Marto

terça-feira, 6 de abril de 2010

Quarto Encontro: O Deus da aliança

1. REPRESENTAÇÕES DE DEUS À MEDIDA DO HOMEM
Moisés encontrou Deus no monte Horeb e viveu depois confiante na Sua presença protectora. Falava com Deus cara a cara, como um amigo ao amigo. Conheceu Deus como Alguém atento aos sofrimentos do povo e interessado na sua libertação. Também o povo hebreu experimentou a intervenção de Deus no Êxodo – na libertação do Egipto.
No entanto, esta experiência parece não corresponder à situação da nossa época. Hoje Deus parece ausente ou, pelo menos, longínquo. Muitas pessoas vivem como se Ele não existisse, contentando-se com os valores materiais.
Alastra hoje uma mentalidade pragmática. Predominam os valores materiais. As verdades apreciam-se pela sua utilidade («para que serve?»).
Nesta mentalidade, a religião e Deus correm o risco de serem apreciados também pelo proveito que trazem às pessoas. Deus é entendido como um Ser Superior que pode orientar em nosso favor as realidades que nos escapam e valer-nos em momentos de aflições. Não há a preocupação de conhecer quem Deus é ou o que pretende. Importa a utilidade que pode ter. Instrumentaliza-se Deus em proveito próprio.
Nesta concepção utilitária, Deus está desligado da vida quotidiana. De facto, nas atitudes e comportamentos, nos negócios ou divertimentos, Deus não é rentável. Aí contam os valores materiais, os interesses ou prazeres imediatos.
A vida do comum das pessoas é realmente dispersa, movimentada, cheia de ocupações ou distracções imediatas. Deus não tem espaço. As pessoas vivem distraídas com muitas solicitações. Deus não chama a atenção, não faz publicidade. Cheias de si mesmas e das suas coisas, as pessoas não têm disposição para a procura do sentido. Vivem do periférico, do efémero. Deus conta na medida e nos momentos em que é útil.
Outra representação de Deus, deformada pela limitação do homem, é a de juiz que castiga. Esta imagem de Deus conduz a uma religião motivada pelo medo. Cumpre-se na medida em que se teme o castigo de Deus nesta vida ou na outra (Inferno). À medida que as pessoas se libertam do medo como acontece actualmente, esquecem-se de Deus.
Estas representações de Deus verificam-se também no nosso meio? Em que factos as notais? Como se explica esta redução de Deus aos interesses humanos? Que consequências negativas acarretam ao cristianismo?
Quais os maiores impedimentos que se colocam ao homem actual para descobrir o verdadeiro rosto de Deus?
Damos conta que o apego das pessoas aos seus interesses e esquemas as impede de descobrir o verdadeiro rosto de Deus. De facto, Deus é um mistério escondido que nos ultrapassa. Não se pode reduzir à nossa medida ou utilidade. Para O descobrir, é necessário sair das seguranças que construímos, pôr em questão os esquemas a que nos apegamos, purificar-se do egoísmo que tudo reduz à nossa medida, libertar-se das inúmeras distracções que nos alienam. Só deste modo podemos encontrar o Deus que liberta e dá sentido e conteúdo à nossa existência. É o desafio que nos coloca o tema da Aliança.

2. DEUS FAZ ALIANÇA COM O SEU POVO
2.1 A purificação no deserto

A primeira fase da caminhada para a liberdade foi a saída de Israel, da terra da escravidão. Mas, depois, ainda havia muito caminho a fazer e, por vezes, cheio de surpresas.
Atravessando o mar vermelho, abre-se diante do povo o horizonte desolador do deserto, apenas ponteado por uma série de oásis. Os israelitas caminharam três dias sem encontrar água. Chegaram então a Mara, onde havia um poço. Todavia a água era salobra, amarga, não era própria para beber. Logo começaram a murmurar contra Moisés. Este descobriu ali um arbusto que tinha a virtualidade de desinfectante e lançou-se às águas. Puderam dessedentar-se. Deus apresenta-se como médico do Seu povo, que cuida da sua saúde para o tornar um povo são. Mas, lembra-lhe que, para isso, é preciso escutar a voz do Senhor.
Surge uma nova provação: a fome. O povo encontra-se angustiado. Arrepende-se do risco da aventura difícil em que se meteu. Tem saudades do passado da escravidão, da gaiola dourada do Egipto onde havia abundância de pão e carne. E queixa-se: «Oxalá tivéssemos sido mortos pela mão do Senhor no Egipto, quando nos assentávamos diante das panelas de carne…» (Êxodo 16:3). Deus revela-se salvador do povo faminto. Através de uma emigração de cordonizes e do maná (seiva solidificada em grão, de um arbusto no deserto), sacia a fome do povo. Moisés, porém, adverte que cada um não recolha mais que o necessário para que não falte a ninguém.

Numa etapa sucessiva, em Meriba, os israelitas estão devorados como nunca pela sede. Agora entram em contenda com Moisés: «Porque nos fizestes sair do Egipto? Para nos fazer morrer de sede com nossos filhinhos e rebanhos?» (Êxodo 17:3). De novo, Deus providenciou através de Moisés para encontrar água num rochedo.
Qual o significado desta travessia do deserto com todas estas dificuldades? À primeira vista, poderia parecer inútil, sem qualquer justificação. Porém, através das provações do deserto, Deus educa o Seu povo (cf. Deuteronómio 8:2-6):
- A liberdade é um dom de Deus, mas também tarefa nossa. O caminho para a liberdade e para a salvação passa sempre através de provações, tentações, riscos, sofrimentos e até do perigo de morte. Então é necessário que o povo experimente que a verdadeira liberdade tem um preço e faça a aprendizagem do valor e dos sacrifícios que ela exige;
- O deserto educa o povo a caminhar com Deus e a confiar n’ Ele no meio dos riscos e das dificuldades, a alimentar-se sempre da fé. Quando não se alimenta da fé, tem a tentação de voltar atrás;
- Por tudo isto, o deserto é um caminho espiritual de purificação e de conversão. O povo é levado a libertar-se das falsas seguranças e dos ídolos de todas a espécie, a mudar de mentalidades e de hábitos adquiridos, a descobrir que as raízes profundas da alienação estão nele mesmo, na sua infidelidade e na falta de fé. Assim, o caminho pelo deserto afina e apura a fé do povo. Aprende que «não só de pão vive o homem, mas também de todas a Palavra que sai da boca do Senhor» (Deuteronómio 8:3). Só uma sociedade que escuta a Palavra de Deus e a põe em prática é uma sociedade viva, sã e justa.

2.2 A Aliança no Sinai
Finalmente, após três meses de provações no deserto, o povo acampa junto ao Monte Sinai. Moisés volta às origens, ao monte da primeira vocação. Porém, agora não vem sozinho, mas acompanhado pelo povo renascido e purificado no deserto.
Junto do Monte Sinai, dá-se entre Deus e o povo um acontecimento determinante de toda a história da Salvação: Deus faz com o Povo uma aliança. O que é uma aliança? Deus compromete-se a assistir o povo e o povo compromete-se em ser fiel a Deus. Deus torna-se o protector de Israel e este, por sua vez, torna-se propriedade de Deus. Esta pertença a Deus deve traduzir-se no comportamento do povo. Assim, como consequência da Aliança, Moisés entrega ao povo, em nome de Deus, os mandamentos da Lei de Deus – que apontam caminho de fidelidade à aliança.

Ler e comentar brevemente:
Introdução à Aliança: Êxodo 19:3-8.

A iniciativa da aliança de comunhão é tomada por Deus. Começa por evocar os seus gestos de salvação para com o povo no Êxodo e no deserto. «Vós mesmos vistes o que eu fiz…»
O caminho da libertação não foi um andar errante e solitário pelo deserto. Foi ser conduzido «sobre asas da águia», isto é, com a ajuda protectora e libertadora de Deus.
Também não foi um caminho sem meta. Tem um ponto de chegada: «trouxe-vos até mim». Deus e a Sua Aliança é o verdadeiro fim da peregrinação do povo.
Só então é proposta a Aliança: «Agora, se escutardes a minha voz e guardardes a minha Aliança…» Deus quer formar um povo seu – Povo de Deus – um povo santo, consagrado a Ele para que seja testemunha do Seu desígnio de salvação no mundo. Só a Aliança com Deus faz homens novos e um povo novo. Assim, a aliança é estabelecida em ordem à santidade e à justiça.
À proposta de Deus, o povo deve responder com uma decisão livre e responsável: «Faremos tudo o que o senhor nos disse».

Lei da Aliança: Êxodo 20:1-17
A resposta concreta pedida ao povo para permanecer na Aliança com Deus vem expressa do Decálogo (Dez palavras – mandamentos). São a «Carta Magna», a Lei da aliança, já que não existe amor sem lei, sem fidelidade. Os dez mandamentos significam, em última análise, que a verdadeira Aliança e a verdadeira liberdade que Deus oferece e propõe aos homens, nasce do amor a Deus e ao próximo. O povo é então chamado a comprometer-se com Deus no caminho da libertação pelo amor, pela justiça, pela verdade.

Celebração da aliança: Êxodo 24:1-8
A Aliança é celebrada e selada através de um rito e de símbolos. O monte é-nos apresentado como um templo onde se ergue um altar (símbolo de Deus) rodeado por doze colunas de pedra (símbolo das doze tribos do povo), em que se oferece um sacrifício de comunhão expresso pelo sangue. Metade do sangue é aspergido sobre o altar e outra metade sobre o povo. O sangue, para os hebreus, é sinal da vida. Este rito significa que entre Deus e Israel existe agora uma aliança de sangue, isto é, uma comunhão de vida. Deus e o povo estão unidos pelo mesmo sangue, pela mesma vida. São como membros de uma só família, unidos por uma relação de intimidade e amor.
Encontramos aqui os três elementos constitutivos da Aliança: a Palavra de Deus, a adesão do povo e o rito – sinal da comunhão de vida.

3. VIVER A ALIANÇA HOJE
3.1. A nova Aliança e o mandamento novo

A Aliança de Deus com o povo, iniciada no Sinai, tem a sua realização definitiva na nova Aliança em Jesus Cristo.
Em virtude da infidelidade do povo de Israel a Deus, os profetas anunciaram uma nova e futura Aliança (Ler Jeremias 31:31-34). Caracterizar-se-á por uma interiorização profunda do amor de Deus, por um coração novo cheio de fidelidade e sinceridade. Será a Aliança do «homem novo» transformado pelo espírito de Deus. Essa Aliança será realizada por Jesus Cristo. A sua morte na Cruz (sangue derramado) é a expressão da nova Aliança, da comunhão total e definitiva de Deus connosco, cujo memorial é a Eucaristia: «Este é o cálice da nova aliança selada no meu sangue» (1 Coríntios 11:25). E, tal como Moisés leu ao povo os mandamentos da Aliança, assim Jesus, na última ceia, promulgou um mandamento novo: «Dou-vos um mandamento novo: amai-vos uns aos outros; como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros» (João 13:34).

3.2. Os frutos da Aliança
Deus apresenta-se como Alguém próximo do povo e amigo. A Aliança realiza uma comunhão vital entre Deus e o povo. Deus assegura ao povo protecção e pede-lhe, em resposta, fidelidade. A Aliança produz assim frutos positivos:
- torna o povo livre;
- leva as tribos, até aí bastante autónomas e independentes entre si, a formar um povo, unido na mesma fé;
- indica um caminho de santidade e fidelidade através da prática dos mandamentos. Estes não são um jugo, mas uma orientação que indica um caminho de maior perfeição para corresponder à aliança de Deus.
M. Pelino - A. Marto