quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Oitavo encontro: Jesus Cristo Messias esperado

1. ESPERANÇA DE SALVAÇÃO

O Natal é uma festa com um significado humano muito rico a que as pessoas dão muita importância. Que significa o Natal para o comum das Pessoas?
Estes valores humanos revelam expectativas profundas de todas as pessoas.
Então porque não fazer Natal todos os dias, ou seja, porque não viver permanentemente estes valores?
Os homens desejam e procuram a salvação. O desejo de amor, de paz, de luz, de encontro, mostra a esperança de salvação. Por outro lado, as pessoas mostram-se incapazes de alcançar a salvação pelos seus próprios meios. Precisam de um salvador que as venha libertar dos seus impedimentos frutos do pecado.
Esta é a constatação e a esperança que percorre o Antigo Testamento, como temos vindo a reflectir.
Esse período da história da Salvação é atravessado pela expectativa da intervenção de Deus que há-de, no futuro, ajudar os homens a encontrar caminhos de paz, de fraternidade. Deus promete, através dos patriarcas e dos profetas, que há-de enviar o Seu Ungido a trazer a Paz e a salvação a todos os homens.

2. JESUS CRISTO REALIZA AS PROMESSAS DO ANTIGO TESTAMENTO

2.1 A vinda de Jesus realiza as profecias do Antigo Testamento
O Antigo Testamento aparece como um movimento de esperança orientado para um acontecimento que há-de transformar os homens e o mundo. Este acontecimento concretiza-se na vinda de um personagem misterioso que há-de surgir da humanidade mais simultaneamente vem de Deus. Como diz Isaías: «Desça o orvalho do alto dos céus e as nuvens chovam o Justo. Abra-se a terra e germine o Salvador» (Is 45:8).
Encontramos muitas profecias do antigo Testamento que se referem a este enviado de Deus que há-de trazer a salvação aos homens. Podemos lembrar duas: Daniel 7:13-14 e Ezequiel 34:11-16; em Daniel vemos a descrição surpreendente dum personagem que vem de Deus, embora semelhante a um ser humano, para realizar o reino eterno e universal. Em Ezequiel é a promessa de que o próprio Deus virá em pessoa cuidar do seu povo, como um pastor cuida do rebanho.
É Jesus Cristo quem realiza estas promessas do Antigo Testamento. A Sua vinda constitui esse acontecimento que marca a história dos homens.
O nascimento de Jesus Cristo veio realmente inaugurar uma nova época. Ele tornou-se membro da humanidade, inseriu-se na nossa vida, caminha connosco. O seu nascimento marcou de tal modo a história que se tornou o seu centro. Nós contamos, na verdade, o tempo a partir do nascimento de Jesus. Quando dizemos 1950 queremos indicar que Jesus nasceu há tantos anos. A história divide-se em «Antes de Cristo» e «Depois de Cristo».

2.2 Jesus Cristo vem na plenitude dos tempos
A vinda de Jesus realiza-se, assim, depois de um longo período de espera e preparação. Ele é, na verdade, o Desejado das nações, o Messias esperado no Antigo Testamento, o Salvador anunciado e preparado pelos Profetas. A história da Salvação, iniciada com Abraão, orienta-se para Jesus. As diversas etapas do Antigo Testamento (revelação a Abraão; Êxodo; aliança do Sinai; instalação em Canaan; exílio e regresso) preparam a vinda de Jesus.
Deste modo podemos compreender muitas expressões do Novo Testamento que se referem à plenitude dos tempos, como por exemplo: «Ao chegar a plenitude dos tempos Deus enviou o Seu filho, nascido da mulher, nascido sujeito à Lei, para resgatar os que se encontravam sob o jugo da Lei» (Gal 4:4-5).
Que significa plenitude da Lei? Refere-se às etapas de preparação percorridas no Antigo Testamento. Jesus veio na plenitude dos tempos e trouxe a plenitude da graça e da verdade, (Jo 1:14) ultrapassando o período da Lei (Antigo Testamento): «A Lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo» (Jo 1:17). Com Ele tornou-se definitiva a Revelação (Heb 11:1).
Ao inserir-se na história humana, ao fazer-se homem com nós, Jesus Cristo transformou realmente a condição humana, iluminando os homens com a Sua luz divina, oferecendo-nos a Sua própria Vida, tornando-se o Caminho, a Verdade e a Vida. «Da sua plenitude todos nós recebemos graça sobre graça» (Jo 1:16).

2.3 Jesus Cristo vem trazer-nos a salvação de Deus.
As expectativas de salvação, que analisamos no início do encontro, ajudam-nos a compreender o significado de Jesus Cristo para todos os homens: Ele vem trazer a Luz e a Vida, a Paz e o Amor. Ele pode, portanto, tornar possíveis as expectativas que vêm ao de cima na quadra natalícia. Ele pode dar corpo e realização ao sonho de um mundo novo de Paz e de Amor. Assim compreendemos a mensagem de Natal dada pelos anjos aos pastores de Belém: «Anuncio-vos uma grande alegria que o será para todos o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador que é Messias Senhor» (Lc 2:10-11).

2.4 Jesus Cristo torna Deus presente entre nós.
Jesus Cristo não vem apenas dar resposta aos nossos anseios humanos. A salvação que Ele nos oferece ultrapassa as nossas expectativas. Os caminhos de salvação que Ele nos propõe fogem aos nossos esquemas; o Seu nascimento e a Sua vida constituem para nós um mistério, representam uma novidade em relação a tudo o que podíamos prever.
Como se explica que Jesus traga assim uma tal riqueza e novidade à história humana? Explica-se pela sua condição: «N’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens… O Verbo era a luz verdadeira» (Jo 1:4). Jesus era de condição divina: «Deus enviou o Seu Filho». Por isso, tinha a plenitude da perfeição.

No entanto apresentou-se como homem humilde, simples e pobre. «O Verbo fez-se carne e habitou entre nós e nós vimos a Sua glória, glória que lhe vem do Pai como Filho único».
Este mistério de Jesus Cristo, Filho de Deus e Deus como o Pai, que veio até nós em figura humana, é o acontecimento que celebramos no Natal. Ele desceu até nós para caminhar connosco e nos elevar até Deus. Fez-se pobre para nos enriquecer (2 Cor 8:9). Fez-se homem para dignificar a humanidade e aproximar-nos de Deus (Ler Jo 1:16-18).
É portanto, em Jesus Cristo que a história encontra sentido e dignidade. Assim, a nossa preocupação deve ser a de restaurar tudo em Cristo: «reunir sob a chefia de Cristo todas as coisas que há no céu e na terra» (Ef 1:10). Ele é o Alfa e o Ómega, o princípio e fim de toda a história. (Cf Ap 22:12-13).

3. CELEBRAÇÃO LITÚRGICA DO NATAL

3.1 O Natal é preparado pelo Advento

A celebração do nascimento de Jesus no Natal é precedida de um tempo litúrgico em que se revive a esperança e a preparação do Antigo Testamento para a vinda de Jesus. É o tempo do Advento, constituído por quatro semanas. Esta quadra do Advento procura despertar em nós o desejo da vinda de Jesus e preparar o nosso coração para O escolher. Apresenta-nos algumas figuras do Antigo Testamento que nos convidam e ajudam a preparar a vinda de Jesus. Ocupa um lugar de relevo o profeta Isaías que nos anima na esperança «não temais; aí vem o vosso Deus». Aparece, também, João Baptista que nos desafia a preparar os caminhos que levam a Deus. Em terceiro lugar, aparece aquela que colaborou mais de perto na vinda de Jesus: Nossa Senhora.

3.2 O mistério do Natal narrado nos evangelhos
O Nascimento de Jesus não é apenas um acontecimento social. É o Mistério da presença de Deus em forma humana. É a realização do desígnio de Deus de salvar a humanidade. Por isso, a narração deste acontecimento nos evangelhos é muito rica e diferente em cada evangelista. Cada um colhe o Mistério numa perspectiva própria. No conjunto, enriquecem-se umas às outras. Vimos a perspectiva de São Paulo (Carta aos Gálatas e Carta aos Filipenses) e outra, mais teológica, de São João.
A narração mais sugestiva e mais movimentada, e talvez também a mais conhecida, é a de São Lucas. Este evangelista dedicou um relevo especial à infância de Jesus e, por isso, o denominamos «Evangelista da infância». Os diversos acontecimentos que São Lucas narra sobre a infância de Jesus foram resumidos pela piedade cristã em cinco mistérios (cinco episódios em que se manifesta o mistério de Jesus já presente na infância): anunciação; visitação; nascimento; apresentação; perda e encontro de Jesus no templo.
Nas várias e diferentes narrações encontramos sempre referência a duas dimensões do mistério de Jesus: descendência da humanidade e proveniência divina.
A. Marto - M. Pelino

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Não há fé sem risco

Qualquer reflexão cristã é um caminho para a liberdade, para Jesus libertador.
Eis o que penso e o que creio: Deus Pai não te criou para seres cristão. Deus Pai não te criou para que O sirvas. Deus não te criou para que lhe rendas culto. Deus criou-te acima de todas as coisas para que sejas homem!
O medo escraviza. A escravatura social, a escravatura mental, a escravatura económica, a escravatura religiosas, a escravatura politica são degradantes e não promovem o progresso do ser humano.
Não existe ser humano sem liberdade. O homem escravo não realiza totalmente o ser homem. Por isso não deixes que te roubem a liberdade.
Qualquer catecismo ou pensamento cristão tem de propor uma caminhada do medo para a confiança, da escravatura para a liberdade plena.
Existem felizmente muitas pessoas sábias que são também crentes, e com medo. Infelizmente, com medo. Um medo que não mata, mas que explica muitas cobardias.
É uma covardia pegada. Uma covardia que impede de dizer em público aquilo que pensam, porque se o disserem vêem a sua posição social (ou laboral) baixar.
Mas há outros também que têm um medo e uma covardia mais assustadores. Não só têm medo aos poderes sociais e religiosos, como também o têm a Deus. Sim, a Deus! E há quem tenha medo de si mesmo, do que pode crer e confiar, de ser livre! Esses nunca respiraram o perfume da liberdade e até há muitos anos que morreram como pessoas! Preferem ter fé sem correr riscos; uma fé calada, amordaçada.
Como se isso fosse possível!
Quem tem medo à novidade não acredita em Deus! Não acredita no Espírito que faz novas todas as coisas. Não acredita no Cristo de ontem, de hoje e de sempre.
Qualquer reflexão cristã é um caminho para a liberdade, para Jesus libertador.

Marcados pelo Espírito

«Fostes marcados com o selo do Espírito Santo prometido.»
(Efésios 1:13)

O Espírito de Deus actua em nós.
O Espírito Santo é selo que nos marca. Marca-nos à imagem do gado ou dos escravos que eram marcados com ferros para que a marca não pudesse ser lavada. O Espírito Santo marca os que lhe pertencem. O Espírito que vive em nós identifica-nos pela sua acção com Cristo. A coerência de vida deve, pois, ser a nossa marca.
Os assinalados são os marcados para serem salvos.
A promessa do Espírito Santo é uma promessa que vem de longe. O Profeta Joel previu que o Senhor derramaria o seu Espírito sobre todos os povos: «Eu derramarei o meu Espírito sobre todos os povos. Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e os vossos jovens terão visões. Ainda sobre os meus servos, homens e mulheres, eu derramarei o meu Espírito naqueles dias.» (Joel 2:28-29)
Também Jesus prometeu o Espírito Santo. E em cada dia Deus continua a manter a promessa do Espírito a todos os que recebam Jesus pela fé, a fim de nos garantir a herança de que já participamos.
Jesus ensinou-nos a rezar, dizendo: «Venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade assim na Terra como no Céu.» E é o Espírito Santo quem garante que antecipadamente, já aqui na terra, recebamos a herança prometida. O Espírito Santo em nós faz-nos saborear (experienciar em nossa vida) o que verdadeiramente é o Céu.
O Espírito Santo é o poder de Deus que nos faz perceber e obedecer, sentir e apreciar o que Deus faz por cada um de nós. Pelo Espírito Santo Deus opera na história, Deus continua actuando em favor da humanidade.

Vamos recomeçar

Plano de Encontros de Crisma:


25 Setembro - Re-início dos Encontros.

15 Outubro - Encontro de Crisma.
29 Outubro - Encontro de Crisma.

12 Novembro - Encontro de Crisma.
26 Novembro - Encontro de Crisma.

10 Dezembro - Memória do nosso Baptismo.

14 Janeiro - Encontro de Crisma.
28 Janeiro - Encontro de Crisma.

11 Fevereiro - Encontro de Crisma.
25 Fevereiro - Encontro de Crisma.

11 Março - Encontro de Crisma.
25 Março - Encontro de Crisma.

2-3 Abril - Retiro espiritual.
15 Abril - Encontro de Crisma.

6 Maio - Encontro de Crisma.
20 Maio - Encontro de Crisma.

3 Junho - Encontro de Crisma.
11 Junho - Vigília de Pentecostes.
12 Junho - Pentecostes.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Porque é que a Igreja baptiza as crianças?

Porque é que a Igreja insiste em baptizar as crianças pouco tempo depois de elas nascerem? Não será isto um atentado contra a sua liberdade? E se mais tarde não quiserem seguir a religião Católica? Não será muito mais sensato esperar que cresçam e nessa altura escolham livremente a religião que desejam praticar?
São muito comuns, nos dias de hoje, estas perguntas. E não somente as perguntas. Também está a tornar-se comum – infelizmente – atrasar o baptismo com o argumento de que é preciso respeitar a liberdade das crianças. Com essa mesma “lógica”, os pais não deveriam escolher arbitrariamente um nome para os seus filhos – seria mais respeitador da sua liberdade que mais tarde os próprios escolhessem. Também seria contra a liberdade dos filhos obrigá-los a ir à escola, a arrumar o quarto ou, em geral, a portarem-se bem. Quem são os pais para imporem aos seus filhos aquilo que consideram que é o bem ou o mal? Não será que essa atitude pode gerar-lhes traumas na infância que dificultarão o exercício da sua liberdade sem nenhum tipo de limites?
Que tal, neste momento, pormos os pontos nos ii? O problema de fundo não é o baptismo nem a liberdade. O problema de fundo é a falta de fé de alguns pais no que significa para o seu filho ser baptizado. Actualmente, vê-se muitas vezes o baptismo como uma simples festa de apresentação aos familiares e amigos da criança que acaba de nascer. Dá-se mais importância a aspectos exteriores como a escolha “cuidadosa” dos padrinhos – não com a finalidade de que saibam zelar pela fé do afilhado, mas com o “critério” de que sejam pessoas amigas que não se esqueçam de dar presentes nos momentos oportunos.
O Compêndio do Catecismo da Igreja Católica diz-nos que é precisamente o desejo de que os filhos sejam livres que leva os pais a pedirem o baptismo pouco depois de eles nascerem. Pergunta nº 258: “Porque é que a Igreja baptiza as crianças?”. Resposta: “Porque tendo nascido com o pecado original, elas têm necessidade de ser libertadas do poder do Maligno e de ser transferidas para o reino da liberdade dos filhos de Deus”.
Se uma pessoa possui de verdade a fé católica – ou seja, se acredita naquilo que nos disse Nosso Senhor Jesus Cristo – sabe que todos nascemos com uma doença espiritual que se chama pecado original. Também sabe que essa doença tem cura – uma cura infalível que é o baptismo. Também sabe que essa cura não foi “inventada” pela Igreja, mas foi instituída por Jesus Cristo, que, com a sua morte na Cruz, nos alcançou a libertação do pecado e a gloriosa liberdade de filhos de Deus. Também sabe que o baptismo é necessário para a salvação porque assim o disse, sem papas na língua, o próprio Jesus: “Quem crer e for baptizado será salvo; mas quem não crer, será condenado” (Mc 16, 15).
Resumindo: o problema dos atrasos no baptismo não está tanto no respeito pela liberdade das crianças, mas sim na falta de fé de muitos pais que se “esquecem” da importância que possui este sacramento para a salvação dos seus filhos.
Pe. Rodrigo Lynce de Faria

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Sétimo Encontro: Maria, a Serva do Senhor

1. RELEVO DE NOSSA SENHORA NA DEVOÇÃO POPULAR
Nossa Senhora ocupa um lugar muito importante na vida da Igreja e no coração dos discípulos de Jesus. Ao longo do ano Litúrgico muitas festas são dedicadas a Nossa Senhora: Anunciação a 25 de Março; Assunção a 15 de Agosto; Natividade a 8 de Setembro; Imaculada Conceição a 8 de Dezembro; Santa Maria Mãe de Deus a 1 de Janeiro. E muitas outras liturgicamente menos importantes.
Não só na liturgia oficial da Igreja. Também na devoção popular. Nossa Senhora ocupa um lugar de grande relevo. É profunda, entre as pessoas simples, a veneração e a confiança na intercessão de Nossa Senhora. As festas e peregrinações movimentam ainda hoje muita gente. Muitos católicos parecem chegar mais facilmente a Jesus Cristo e a Deus através da Virgem Maria.
A devoção a Nossa senhora aparece, portanto, profundamente associada à vida cristã, tendo deixado, na história do cristianismo, fortes marcas exteriores: Igrejas, ermidas e festas; orações e narrações de factos miraculosos conservados na memória do povo; valiosas obras de arte motivadas por Nossa Senhora, etc.
Encontramos também na devoção popular algumas formas desviadas: revelações privadas consideradas, por vezes, mais importantes que a Revelação bíblica; sentimentalismo superficial e procura fácil do milagre, etc.

2. MARIA NO MISTÉRIO DE CRISTO E DA IGREJA
O Concelho Vaticano II alerta que «a verdadeira devoção a Nossa senhora não consiste na emoção estéril e passageira mas nasce da fé que nos faz reconhecer a grandeza da Mãe de Deus e nos incita a amar filialmente a Nossa Mãe e a imitar as suas virtudes» (LG 67).
Vamos pois reflectir o que a fé cristã, nas suas fontes bíblicas e do magistério eclesial, nos indica sobre o lugar de Nossa Senhora na vida cristã.

2.1. Participação de Nossa Senhora na vida e missão de Jesus
Os evangelhos de São Lucas e de São João manifestam a íntima ligação de Nossa Senhora com a vida e missão de Jesus Cristo e com a vida dos crentes.
Ao narrar a infância de Jesus, São Lucas mostra a presença de Maria nos episódios marcantes da vida oculta de Jesus de Nazaré, em que se desvenda já o seu Mistério: Anunciação; Visitação; Nascimento; Apresentação no Templo; Perda e encontro em Jerusalém.
São João, por sua vez, mostra Nossa Senhora profundamente associada à «hora» de Jesus: início da vida pública e momento supremo da redenção em que Maria é entregue como Mãe ao discípulo que representa todos os que hão-de acreditar n’Ele.
A participação nos acontecimentos importantes da vida de Jesus engloba também o momento da glorificação e o do nascimento da Igreja no dia de Pentecostes. Nossa senhora participa realmente na vitória de Jesus sobre o pecado e sobre a morte (a glorificação na Ressurreição e Ascensão) através da Assunção ao Céu; e está presente no Pentecostes como Mãe espiritual de todos os crentes.

2.2. Maria Nossa Mãe
Esta associação de Nossa Senhora à vida e à missão de Jesus continua ainda hoje. «A maternidade de Maria na economia da graça perdura. Elevada ao céu, não abandonou esta missão salvadora, mas, com a sua multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna. Cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra até chegarem à pátria bem-aventurada» (LG 62)
Solidária com o género humano, de quem é ilustra membro, e associada à Redenção de Jesus, Nossa Senhora ocupa, portanto, um lugar de primeira importância na vida cristã. Ela é nossa Mãe na ordem da graça, atenta ao nosso caminho para Deus, preocupada com a nossa salvação (cfr. LG 53).
Mãe do Redentor ela é, portanto, nossa Mãe: «é verdadeiramente Mãe dos membros de Cristo porque cooperou com o seu amor para que na Igreja nascessem os fiéis» (LG 53).
Nossa Senhora é Mãe de Jesus, não apenas no sentido biológico ou físico, mas também no sentido espiritual, na ordem da graça. Quando uma mulher do povo, que ouvia a pregação de Jesus, exclamou: «Feliz o seio que Te trouxe e os peitos que Te amamentaram», exaltando assim a maternidade biológica de Maria, Jesus acrescentou: «felizes os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática». Desta forma indica que a grandeza da sua Mãe se fundamentava também na fé: Ela escutou atentamente a Palavra do Senhor, guardando-a e meditando-a no seu coração para compreender o seu sentido profundo, e dispôs-se a colaborar humildemente com o desígnio de Deus «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a Tua Palavra». Assim, o reconhece a sua prima Isabel na Visitação: «Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor» (cfr. Lc 8,19-21; 2, 13; 1, 38 e 45).

3. NOSSA SENHORA CATECISMO VIVO DA VIDA CRISTÃ
Vimos, na Sagrada Escritura e no magistério da Igreja, que a grandeza de Nossa Senhor assenta na sua profunda ligação à Redenção de Jesus. Concluímos, assim, que o lugar importante de Nossa Senhora nasce da fé e não apenas do sentimento.
Como manifestar, pois, a veneração a Nossa Senhora? Como dar a Nossa Senhora o lugar que ela merece na nossa prática religiosa?
O Concílio, atrás referido, conclui que a fé nos incita a amar filialmente a nossa Mãe e a imitar as suas virtudes.

Como concretizar o amor filial a Nossa Senhora?
a) Recorrendo a Ela, entregando-nos ao Seu cuidado materno através da oração. Esta confiança na protecção de Nossa Senhora tem sido constante ao longo das gerações e ainda hoje deve caracterizar todos os discípulos de Jesus. Vem desde o séc. VI esta bela oração a manifestar a confiança na ajuda materna de Maria: «À vossa protecção recorremos, ó Santa Mãe de Deus, não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos ó Virgem gloriosa e bendita».
Algumas formas de oração a Nossa Senhora tornaram-se muito populares. Entre elas merece especial destaque o Rosário (terço), chamado o breviário do povo, continuamente recomendado pela Igreja como oração da família. Recitado como oração familiar ajuda realmente a orientar para o Senhor a vida do lar. Ao longo das dezenas do Rosário pedimos a intercessão de Nossa Senhora e, na sua companhia, aprendemos a meditar os mistérios de Jesus (acontecimentos principais da vida de Jesus que manifestam o mistério da Sua pessoa).

Como e quando rezar a Nossa Senhora?
b) O amor filial à Virgem não pode limitar-se a pedir a sua intercessão. Deve manifestar-se também na imitação das suas virtudes. Ela é a Serva do Senhor que nos apresenta Jesus como luz e salvação e que nos orienta para Jesus. Nossa Senhora foi realmente a primeira e mais perfeita discípula de Jesus. Ensina-nos, não apenas com doutrina, mas com os exemplos concretos da sua vida. O Papa Paulo VI chamou-a «catecismo vivo» onde podemos aprender na prática como deve ser o discípulo de Jesus.

Que atitudes cristãs mais importantes podemos aprender com Nossa Senhora?
- Ensina-nos, antes, de mais a escutar a Palavra do Senhor e a guardá-la no coração.
Maria realmente escutou e compreendeu a mensagem da Anunciação. Continuou a escutar os vários personagens que aparecem na infância de Jesus. Escutou depois a Palavra do Senhor. Escutava e guardava no coração procurando compreender e aprofundar.
A devoção à Mãe do Céu orienta-se, assim, a escutar a Palavra de Deus, a meditá-la no coração e a aprofundá-la cada vez mais.
- Ensina-nos também a colaborar na realização do plano de Deus. Ela mostrou-se disponível e obediente. Apresentou-se como Serva humilde colocando a sua vida ao serviço do plano divino.
Seguir o seu exemplo é participar também no apostolado da Igreja para que a salvação de Cristo se estenda ao mundo.
A devoção a Nossa Senhora conduz-nos portanto a Jesus: incentiva-nos a segui-Lo e integra-nos na Igreja.
Maria resume a esperança do Antigo Testamento e da Igreja – Ela é chamada a estrela da Manhã: «Assim como esta estrela, conjuntamente com a Aurora, precede o nascer do sol, assim também Maria, desde a sua Conceição imaculada, precedeu na história do género humano, a vinda do Salvador, o nascer do Sol da Justiça» (RM 3).
Aprendamos, portanto, com ela a esperar e a preparar a vinda do Senhor, «Sol que ilumina todo o homem que vem a este mundo».
A. Marto - M. Pelino

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Sexto Encontro, Deus conduz a história para a salvação


1. RELAÇÃO ENTRE A FÉ E OS ACONTECIMENTOS DA HISTÓRIA
Nos encontros anteriores verificámos que Deus se revela no Antigo Testamento como um Deus próximo, presente e atento á vida do povo de Israel, preocupado em orientar a história pelos caminhos da justiça e da paz.
No entanto, o desígnio de Deus choca com a liberdade e com o pecado do povo e dos chefes, «O Rei e o povo fizeram o que era mão aos olhos de Jahvé», repete frequentemente o livro dos Reis. A infidelidade à Aliança provoca calamidades (guerras, exílios, etc.). Apesar do pecado Deus intervém, «escrevendo direito mesmo em linhas tortas», fazendo, apesar de tudo, avançar progressivamente o Seu desígnio de Salvação.
O desígnio de Deus mostra-se, portanto, ligado aos acontecimentos da história. O povo de Israel conheceu a Deus sobretudo a partir da sua história, a partir da acção de Deus em seu favor e da Palavra.
Que nos diz a nossa experiência sobre esta relação entre a fé em Deus e os acontecimentos da história? Não será que muitos acontecimentos são entendidos como negação da Providência de Deus? Como por exemplo os desastres, a opressão dos mais débeis, as guerras, o sofrimento inocente, etc?
Em relação à transformação contínua que se verifica na sociedade (mudança de cultura, de hábitos, etc) qual a atitude mais frequente que notais à vossa volta? De pessimismo e receio do futuro? De optimismo e de esperança? Ou a sensação de divisão interior e de relativização de tudo?
A fé cristã aparece, no vosso ambiente, apenas ligada ao passado ou também como incentivo a confiar e a construir o futuro? Leva ao compromisso com as realidades sociais ou ao desinteresse pelos acontecimentos da história?
Que orientações podemos colher na sagrada Escritura sobre esta problemática? É a reflexão que vamos fazer.

2. A SALVAÇÃO DE DEUS REALIZA-SE NA HISTÓRIA DOS HOMENS

2.1. A Aliança vivida na história
O pacto de Aliança estabelecia uma comunhão existencial entre Deus e o povo israelita sintetizada na fórmula: «Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo». Da parte do povo implica a fidelidade aos mandamentos. Porém, o povo de Deus, em contacto com outros povos ou perante as dificuldades, nem sempre correspondeu à Aliança. Logo junto do Sinai os israelitas fabricaram um bezerro de oiro e adoraram-no. Preferiram um Deus a seu gosto ou à sua medida.
Perante a infidelidade do povo, Deus permite vários castigos e deixa que a peregrinação pelo deserto se prolongue por muitos anos de modo que o povo se purifique antes de entrar na Terra Prometida (cf. Deut 8,2-3).
Deus permanece fiel e continua, apesar de tudo, a proteger o povo através de vários dons miraculosos, como: o maná; a água que brota do rochedo: a coluna de fogo.
Finalmente, depois de 40 anos de peregrinação pelo deserto, tendo já Moisés morrido, o povo entra na Terra Prometida, condizido por Josué, sucessor de Moisés (cf. Josué 1, 1-4)
A posse da Terra Prometida não garantiu a fidelidade do povo nem realizou definitivamente as promessas de Deus. O povo continua sujeito às tentações que agora se concretizam na sedução dos falsos deuses dos povos vizinhos, esquecendo frequentemente a Aliança com Deus que os libertara do Egipto. Os próprios reis de Israel, escolhido para orientar o povo na fidelidade à Aliança, se deixam tentar pela idolatria e pela iniquidade.
O povo de Israel escolhido desde Abraão como povo santo de Deus, libertado do Egipto, objecto de aliança, aparece-nos assim como um povo cuja história é marcada pela intervenção de Deus. Estas intervenções marcam a sua consciência religiosa, são guardadas de memória e transmitidas de pais para filhos. A própria liturgia manifesta esta experiência histórica da protecção de Deus. Assim o Credo do povo de Israel, mais que um conjunto de afirmações doutrinais sobre Deus, é uma narração de acontecimentos históricos nos quais tomaram consciência da presença, orientação e protecção de Deus (ler Deut 26, 5-10).

2.2. Os profetas actualizam a Aliança
Devido à infidelidade do povo, a residência na Terra Prometida não foi uma posse serena mas frequentemente ameaçada. Algumas vezes, o povo é desterrado para o exílio e frequentemente dominado por povos estrangeiros que tentavam apagar a memória religiosa de Israel. Deus, porém, envia profetas que mantêm viva no povo a consciência de Aliança.
Os profetas aparecem-nos profundamente atentos aos acontecimentos do seu tempo, interpretando-os à luz da Aliança e decifrando neles a realização do desígnio de Deus. Os acontecimentos salvíficos do passado, como o Êxodo, a Aliança e a entrada na Terra Prometida, constituem para os profetas uma chave de leitura e de compreensão da história do seu tempo. Os profetas mostram-se homens da Palavra de Deus situada na história, procurando descobrir os apelos de Deus nas situações concretas. A interpretação da Aliança é sempre actualizada em resposta ao presente e como perspectiva de entender o futuro.

2.3. A Aliança como realidade dinâmica
A Aliança entende-se, pois, não como realidade estática, mas dinâmica, que progride para a perfeição, que conhece fases de desenvolvimento e um contínua actualização. É interpretada como promessa de Deus que se projecta para o futuro e atravessa toda a história de Israel. Os acontecimentos da história são, por isso, entendidos como etapas da realização progressiva da Promessa de Deus a Abraão e à sua descendência:
- a libertação do Egipto
- a travessia do mar Vermelho
- a assistência na peregrinação pelo deserto
- a Aliança no Sinai
- a entrada na Terra Prometida.
O povo experimenta continuamente a dificuldade de permanecer fiel ao caminho indicado por Deus. A fidelidade só é possível se for constantemente alimentada e renovada.
As infidelidades do povo à Aliança levam os profetas a concluir a insuficiência do Antigo Testamento e a anunciar, para o futuro, uma nova Aliança. Assim a perfeita comunhão com Deus só no futuro se realizará.

2.4. Jesus Cristo centro da história da Salvação
O acontecimento histórico que mais profundamente determina a realização do plano de salvação de Deus é a vida de Jesus, sobretudo a sua morte e ressurreição. Também este acontecimento se situa na realização da Promessa que vem desde Abraão: «Tomou a Seu cuidado a Israel seu servo lembrado da Sua misericórdia como tinha prometido a nossos pais a Abraão e à sua descendência para sempre» (Lc 1, 54).
Podemos, pois, concluir que toda a história é orientada por Deus para realização da Salvação. O plano de Salvação de Deus dá sentido à história e unidade aos acontecimentos. Jesus Cristo é entendido como centro de realização deste plano. Ele veio quando o tempo (da preparação) chegou ao fim (a plenitude dos tempos) e inaugurou a presença do Reino. Mas, ao mesmo tempo, orienta-se para o Reino que há-de vir, convidando-nos a prepará-lo. Com Ele o Reino «já» chegou mas «ainda não» atingiu o seu termo.
O desígnio de Salvação continua a progredir. Somos convidados a colaborar na sua realização. Esperamos o novo céu e a nova terra em que habita a justiça e a paz. Essa Jerusalém celeste é dom de Deus, desce do céu, mas é também fruto da nossa colaboração em construirmos os valores do Reino: a justiça, a paz, a fraternidade entre os homens (cf. Apoc 21, 1-7; G S nºs 39 e 45)

3. CONFIAR E COLABORAR NO DESÍGNIO DE SALVAÇÃO

3.1. Confiar no futuro
A história encaminha-se para a plenitude, para a novidade constante do Reino de Deus. Como cristãos, não podemos desejar um regresso ao passado, aos bons velhos tempos de antigamente. Deus, Aquele «que faz novas todas as coisas» (Apoc 21, 5), convida-nos a confiar no futuro e a prepará-lo. Ele caminha connosco, vai à nossa frente, fazendo crescer a semente do Reino que Jesus Cristo lança na terra e no coração dos homens.

3.2. Escutar Deus no presente
A orientação para o futuro e o compromisso com o presente devem assentar na memória do passado. É através da reflexão nos acontecimentos passados (Eleição e Promessa a Abraão, Êxodo, Aliança, etc.) que encontramos luz para entender o presente e para perspectivar o futuro. Daí a importância do conhecimento da Bíblia. Ela contém a memória do Povo de Deus, não apenas como um livro do passado mas como Palavra de Deus sempre actual que ilumina o presente e o futuro. Na Sagrada Escritura devemos escutar o apelo de Deus que se dirige hoje a cada um de nós, convidando-nos à fidelidade ao Seu projecto.

3.3. Testemunhar a Esperança
Se o futuro pertence a Deus que conduz a história dos homens somos convidados a viver em atitude de esperança.
O tempo do Advento põe-nos em contacto com algumas figuras do Antigo Testamento que nos orientam a esperar o Senhor que vem. O senhor vem continuamente ao nosso encontro. Nós, a Igreja peregrina, devemos procurar os caminhos do Reino que Jesus já inaugurou mas ainda não realizou definitivamente. Somos peregrinos a caminho do novo Céu e nova Terra que deus preparar para os seus eleitos. «A expectativa da nova terra não deve, porém, enfraquecer mas antes activar a solicitude em ordem a desenvolver esta terra, onde cresce o corpo da nova família humana» (GS 39).
Assim a Esperança não é uma atitude passiva, que nos leve a esperar de braços cruzados, mas uma atitude activa que leva ao compromisso de colaborar na construção do reino de Deus.
M. Pelino - A. Marto